Novembro. O calor da tarde e sonolência da sesta embalavam-na. O ar. Parado. Murmúrios da televisão e zunir de uma mosca. Batia incessante, incessantemente na janela, tentando retornar à rua.
Pernas flexionadas, plantas dos pés no chão, brincava com os dedinhos na textura do tapete. O calor, tanto, que suspendeu o tecido leve do vestido acima da cintura. Algodão branco, estrelas azuis. Pousou-as sobre o peito. As mãos, acomodou-as sobre a pele fresca, agora livre, da barriga, que ronronava ainda e fazia os leves movimentos da digestão.
Os pensamentos passeavam. Fiapos. Soltos. Aéreos. Quarto abafado. Passeavam pelos acontecimentos, pelas palavras da senhora... advertindo-a... Então... Mocinha... Sim, também as colegas, da escola... Ah, mas essa mosca não sai nunca pra rua? ...As colegas falavam... Meninos... Uma vez, aquela festa... Ai! Lábios? ... Línguas? ...Estranho deve ser!... só pode! ...Podia abrir a janela pra mosca sair...
As mãos... levantar... fechar a janela... Tentativa sem forças. Pensamentos. Fiapos. Curiosidade. Curiosidade lenta, receosa. As mãos na barriga. Dedos finos, unhas roídas, deslizando. Lenta, lentamente. Curiosas. Passando pelo umbigo em direção ao baixo ventre. Ali, respiração, pele, penugem. Dourada.
Medo. O que fazia?
Não, não parou. Movimento lento, contínuo. As mãos, deslizando. Uma linha descendente pelo corpo. Chegou à margem da calcinha, infiltrou os dedos por baixo do elástico... a boca, seca. Seguiam os dedos clandestinos, invasores. Aquilo era um terreno privado! Invasores, lentos, quietos. Curiosos.
Deslizaram os dedos pela aspereza. Púbios pelos, inda nascentes. Os joelhos cederam moles, para os lados. Tremor, leve, constante. Receio que sacudia o corpo magro. Ansiedade e excitação de desbravador, aprendia lentamente os caminhos de um terra nova, não explorada.
Agora, maciez daquelas carnes. Tatear, compreender essa anatomia... Úmida... Excitação... forças opostas... Receio. Um pouco mais, só... Cerrou os olhos, lábios entreabertos. Só...
Susto! Pára! Tão longe! As pernas tremiam, moles, gelatina. Coração em baque disparado, boca seca.
Lenta, lentamente, encolheu-se. A mosca já não zunia na janela... Acomodou-se. Ninho de almofadas. Aninhou-se. Urso de pelúcia. Abraçou-o. Lenta, lenta. Adormeceu.
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