segunda-feira, 6 de junho de 2011

Brinde à família

Naquela manhã, nada para comer na casa. Café? A casa de Saulo seria a alternativa para uma pizza com Coca-Cola às 9 horas. No dia anterior, a mãe havia passado no que fora um lar e feito comida apenas para Billy, o cachorro. Coitado, ele também tinha fome! A questão é que agora tinha apenas 2 reais para pegar o trem para a Cidade (pedir para passar sem ter o valor completo da passagem não lhe dava mais medo ou vergonha, mesmo depois de mendigar por isso nas portas dos trens em outros tempos, outros estágios). Em compensação, dali a aproximadamente 10 dias, receberia seu primeiro
salário da Corporação, quase 1.000 reais para um jovem com dois reais no bolso a procura de apê de R$ 900.

As oscilações financeiras tornaram sua percepção e valorização do dinheiro muito efêmeras. Quando tinha a grande quantia na mão, não necessariamente as coisas estão melhores, mas podia comprar comida na rua. Naqueles tempos, não hesitava em gastar com a atual regalia. Afinal, pensamos melhor de barriga cheia. Com ela vazia tendemos à dor de cabeça e à raiva de quem prefere alimentar cachorros; raiva de quem só alimenta cachorros. Quando é que havia se tornado mais natural a sensibilidade com o animal de estimação do que com o semelhante social? Todos sentiam fome! Todos
haviam ficado lá, sozinhos, resistindo, sobrevivendo, tirando leite das fontes secas, que, nesse caso, eram as geladeiras vazias.

Sabendo da incerteza do café da manhã seguinte, pensou na fome da noite anterior. Chegou com ela em casa. O papaizinho? Ele estava lá, decadente e mais magro, claro, como todos haviam percebido, mas poucos comentado. Também acompanhado dela, respondeu apenas "vou comer também". Só para matá-la mesmo, e menos para deliciar um prato gostoso, o filho pegou todos os últimos alimentos industrializados da casa: um macarrão velho e aberto que estava aparentemente vencido, uma lata de atum, e duas de sardinha - preferiu não ver a validade dessas. Muito alho e cebola, praticamente os
únicos perecíveis na geladeira. Diferentemente de antes, dessa vez, não quis jogar fora o óleo dos enlatados, não podia. Para a matança daquela noite, a gordura seria necessária, daria mais sustança - a refeição do dia seguinte era incerta, já disse.

Feijões tailandeses secos, foi tudo o papaizinho esquentou e pôde oferecer para o banquete. Está pronto! Como também não tinham mais nada com gosto para beber, abriram um espumante, um dos três que não tomaram na ceia de Natal, no ano anterior, porque não a tiveram simplesmente - coisas que hoje julgava ser um conservadorismo das família politicamente felizes. Estranhamente, naquela época de vacas magras, ou melhor, de seres magros na casa – o seu peso oscilava junto com seu salário, um regime natural- ; época de vida sem gosto, salvo as válvulas de escape fora de casa, e de
bebidas sem gosto, os três espumantes foram consumidos rapidamente. Era a sede de sabor; sede da vida. Enfim, ao som de "A gente vai levando" - trilha sonora proposital para a superação dos oprimidos, esquecidos-, tiveram uma ceia fora de época, a ceia de suas épocas, a posteriore, mas nem tão tarde - terminaram tudo à 00h30 mais ou menos. A comida estava muito boa, de verdade. Melhor do que o arroz do outro dia. Porém, o papaizinho falou que faltava sal, apesar de dizer também que, na manhã seguinte, gostaria de comer aquele macarrão com pão - na probabilidade de nada, qualquer mistura serviria. Ahh, sim, sal também havia sobrado na casa. Só condimentos praticamente e arroz puro, que tanto gostava na época em que podia misturá-lo com outras coisas. Hoje, parecia realmente muito simples (muito pouco) para matar a fome.

"Vamos brindar, papaizinho, à nossa sobrevivência - querendo dizer decadência ou mesmo resistência cansativa- na cada em que ninguém quer mais morar", falou colocando o espumante nos copos convencionais. "Um brinde à família", respondeu o paipaizinho iludido e estranhamente esperançoso - olhava para ele e tinha muito dó, estava mais velho, mais frágil e, provavelmente, desesperado sem ter para onde ir. “Um brinde à família da casa que ninguém quer mais morar, que ninguém quer enxergar! Um brinde à família da casa! Um brinde à família! Um brinde!”. E se calaram com as bocas
de macarrão.

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