segunda-feira, 6 de junho de 2011

A salvadora da pátria

Você sabe como é, né? Vai chegando os 60 e logo os 70 e a gente começa a sentir uma necessidade terrível de ter feito alguma coisa de útil neste quase um século de vida. Os tricôs, o ato de alimentar pombos ou de cultivar orquídeas não são tão memoráveis quanto a minissaia (abaixo do joelho) da antiga juventude.

Se o caso não era assim tão trágico, se aproximava. Ela estava ali, sozinha, em meio à animalização humana. Mas justo ela, uma pessoa que já passou por tanto, mas tanto, mas tanto! Que não poderia se conformar com qualquer coisa. Seu olhar era furtivo e de reprovação a cada massa de gente que entrava mais como massa do que gente porque se não fosse assim não teriam como se afirmar como gente por pelo menos uma hora do seu dia – uma hora de almoço, talvez.

Mas para ela não fazia sentido – mal educados! - Pensava com sua respiração ofegante. Cansava-lhe aquela posição torta, apertada e tentada pela inércia. Era um absurdo ter que passar por aquilo, mas no entanto estava só. Era só ela para lutar contra todos aqueles brutamontes que ocupavam lugares inexistentes dentro do vagão.

Foi quando surgiu uma luz. Lá entrava sua salvação... Uma das suas: cabelos grisalhos, olhos cansados atrás de lentes bifocais, um suéter azul turquesa, uma bolsa leve com alguns novelos de lã. Aquela era sua deixa, era seu momento de mostrar sua indignação – podemos começar uma revolução! - ou mais do que isso, ela poderia mostrar a que veio, sua formação, sua cidadania esquecia há décadas de aposentaria falida e que mal lhe garantia independência em relação aos seus filhos.

Passou a buscar por todos os lados alguém que pudesse ser crucificado em público para mostrar o seu poder. Olhou bem ao redor até reparar em algo estranho, bem ali próximo a si. Estava tão cansada, era tão idosa – e de fato era – precisava tanto sentar. A sua frente um banco preferencial e um homem, tinha entre 30 e 40 anos. Absurdo um rapaz como aquele estar sentado ali, enquanto ela estava tão cansada. Não pensou duas vezes. Virou-se para o lado:

- Você não quer se sentar? - perguntou para a senhora, não tão senhora se comparada a ela mesma.
A colega recusava veementemente o assento enquanto a outra argumentava “é o nosso direito”. Abaixou-se e cutucou o homem:

- Escuta, o senhor tem carteirinha?

Sem entender, o homem olha para cima com cara de dúvida.

- É! A carteirinha preferencial. Você tem? - continuava com ares inquisitoriais de quem faz uso
de uma autoridade esquecida.

Foi com pesar, talvez um pouco de vergonha e receio embebidos de rancor e inconformismo, que o homem mostrou, lentamente, o bilhete rosado que lhe garantia o direito de estar sentado ali.

E foi também com receio, mas não tanto - afinal, tinha sido justa. “A gente tem que perguntar, né?” justificava-se – que a justiceira da terceira idade compreendeu o caso. Ela se ajeitava no seu lugar quando o homem iniciou o seu ato.

Sem se levantar, com muita falta de coordenação, colocou sua mochila, retirou uma bengala escondida atrás de suas vestes, levantou-se com mais dificuldade ainda e com uma mão apoiada na bengala e outra nas alças de apoio – que de tanto apoio que fornecem são chamadas com nome de palavrão – cedeu o lugar para a idosa.

O ato heróico, se não desbundou, desbancou nossa justiceira. Não faltaram novos heróis para compor uma liga. Uma terceira senhora se levantou do banco não preferencial e o cedeu para o deficiente. Este recusou, criando um impasse de quatro passageiros e dois bancos recusados. Bancos de vergonha de heróis fracassados em suas vidas e em seus momentos de glória – estou indo para fisioterapia – lembrava a justiceira.

A briga durou até um dos componentes da liga desembarcar. O deficiente cedeu e retomou seu lugar. Um outro banco ficou vago e foi alvo de disputa entre a grande defensora da pátria e sua oprimida inicial. Competiram por menos de um minuto para que a justiceira perdesse o direito de ficar em pé e, resignada, com muita vergonha, se sentasse sob os olhares acusatórios de outras idosas inconformadas. “Que papelão”, pensavam todas as salvadoras da pátria.

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