O estopim foi a chegada terrivelmente tardia no aniversário da irmã. Da rua ouviu o início desajeitado de vozes e palmas que rapidamente entraram em compasso antes mesmo de torcer a chave na fechadura da porta do carro, maldita chave, maldita desorganização, idiota, idiota. Atrapalhava-se em sua pressa inútil que levava ironicamente sua desordem pessoal para dentro da sincronia coletiva de vozes cada vez mais juntas no ritmo do parabéns, já estão no parabéns, que vergonha, já no parabéns. A cantoria lhe soava como o anúncio da condição embaraçosa em que se metera. Cruzou correndo a rua, o presente escorregando pelo braço, as mãos sem poder ajudar, uma com a mala, a outra com a chave e a blusa, só a ponta de um dedo livre para apertar a campainha, que arremessaria sobre o cristalino compasso da canção uma pedra de som pequena, mas pesada o suficiente para estilhaçá-lo. O berro da campainha seria uma intervenção impertinente, não, a campainha não, não agora. A imposição da espera ressaltava dura e implacavelmente a inutilidade da pressa com que correra até ali, tudo errado, tudo errado. Resignou-se à espera inevitável e o caráter passivo da resignação acentuou seu desânimo. O corpo inerte parado inutilmente em frente a um portão pareceu-lhe patético, ainda mais quando despertou a curiosidade de uma vizinha do outro lado da rua. Se o olhar atento dela já o constrangia, imaginou o tamanho insuportável do constrangimento que seria deparar-se com um mosaico completo de olhares de todos os parentes ao entrar na festa, tenho certeza que vão achar que é descaso, a chave vai soar como desculpa, mas não é, merda, que merda. A previsão dos momentos iminentes o angustiava. Tal sensação orientava o movimento de seus pensamentos desencadeando raciocínios desanimadores que construíram com impressionante rapidez uma lógica tão consistente que só restou-lhe aceitar a conclusão final que ele mesmo entregou para si: seu estado era simplesmente incompatível com o entusiasmo que transbordava o parabéns de dentro da casa como uma onda leve desaguando pelas escadas até chocar-se contra a densidade do desânimo de seu corpo inerte esquecido em frente ao portão. Uma última onda forte desceu, a repetição acelerada do nome da irmã em uníssono, mas não encontrou com nenhum obstáculo ao fim das escadas: ele já estava do outro lado da rua, procurando a chave no bolso para abrir o carro, maldita chave, maldita desorganização, depois eu invento uma desculpa, ela vai entender.
Quando encostou a cabeça ao travesseiro para dormir, o sono era incapaz de domar a agitação de seus pensamentos. Sua mente remontava o passado que o levara até aquele momento numa seqüência estática de acontecimentos pelos quais ele passava os olhos, indo e voltando, observando cada detalhe atentamente: a desorganização de seus compromissos fez com que corresse ao shopping para comprar um presente pouco antes do início da festa; a desorganização do uso de suas roupas fez com que percebesse só no momento em que abriu o guarda-roupa após sair do banho que estava sem roupas para a festa; a desorganização de sua casa fez com que perdesse a chave do carro ao voltar com o presente, pela qual procurou por aproximadamente duas horas tamanha a bagunça. A soma de suas desorganizações resultava na quantidade exata de horas e minutos de atraso suficiente para perder o parabéns. Lembrou-se imediatamente de tantos outros compromissos afetados por sua desorganização e decidiu que aquele seria o último, que a perda do aniversário da irmã seria o marco de uma nova fase em sua vida. Logo na manhã seguinte, começou a arrumar tudo ao seu redor. Em menos de um mês, conseguiu perceber maravilhado os inúmeros benefícios de ter suas coisas à disposição imediata, desde pertences a compromissos e idéias anotadas. Organizar transformou-se num prazer que cresceu constante por um ano até este dia, da festa de aniversário de sua irmã, em que passa a tarde inteira tão entretido em organizar suas fotos no computador que perde a hora e quando se dá conta está terrivelmente atrasado. Veste a roupa que já estava separada, apanha o presente comprado com antecedência, pega rapidamente a chave do carro e parte. Ao chegar, da rua ouve o início desajeitado de vozes e palmas que rapidamente entram em compasso antes mesmo de torcer a chave na fechadura da porta do carro.
Nenhum comentário:
Postar um comentário