Semicerrou os olhos num estado de quase delírio. O teto era seu mundo e tudo acontecia lá, o anteparo de sua projeção mental. O teto era velho, pobre e denunciava a mesquinhez com que o cubículo fora construído pelas imensas rachaduras. Elas despedaçavam progressivamente libertando no ar uma poeira espeça, fuligem da tintura branca trincada. Sentiu o pó assentar em seu rosto, era como se um pouco do universo chegasse até ele na forma daqueles flocos brancos gelado de neve, muito gelados, de uma neve muito branca e infinita que cobria todo seu universo visível. Uma Sibéria diante de seus olhos, apenas neve, pra sempre, para o todo a neve, e ela o atingia cada vez mais forte, mais fria, uma tempestade agora...seus pés afundavam na grossa camada que cobria a superfície, cobria-a toda como se superfície não existisse mais. A roupa pouca castigava o corpo gelado sem piedade, sem defender do frio, como se não se importasse – e quem se importaria agora? O medo lhe tomou por inteiro e o assustava mais que o frio. Era tudo tão branco, tão belo. Temer o belo, o limpo, o puro era assustador! Quis sentar-se à neve como uma criança, brincar com ela, inocente. Quis fazer anjos, bonecos, moldar bolas, inocente. Mas toda aquela inocência branca não lhe pertencia mais, não podia ser criança, o frio gelou seu coração e agora ele não podia mais ser criança, inocente. Sua lágrima derreteu a neve. Derreteu a inocência, pureza, brancura. Mimado, raivoso, temeroso, cansara-se...quis, não pode, cansara-se. Desdobrou os joelhos estalando-os, pôs-se a andar. Sair dali. Aquele universo era grande demais, era tudo que via, era tudo. É muito grande! Seus pés, coitados, reclamaram da dor. Neve dói! Andava, andava, mais, mais, corria, mais ,mais, cansava ele. Uma dor gritou-lhe ao cérebro para parar, uma dor no peito, mas ele discutia com ela. Convenceu-a quando, de longe, viu algo. Que é? Aquilo, que é? As pegadas no lençol infinito e monocolorido eram multiplicadas em velocidade crescente. O ponto aumentava no horizonte, então estava rápido, então chegava. Cada vez mais nítido e próximo, o referencial decifrou-se em poucos minutos. Era um jovem cansado em meio a uma imensidão de flocos, porém coberto por uma casaca forte e preta, sem gelo na cara, sem peito roxo e a mesma mão trêmula pedindo ajuda. Os olhos, confusos por falharem em serviço já tão costumaz, tentaram de novo, todavia o resultado caía numa mesmice chata, preferindo eles admitir a certeza que tinham. Via a si mesmo, um reflexo no meio do nada. Como quem não pode perder, arrastou o corpo na direção pedindo auxílio ao tato. Este lhe informou de uma superfície lisa e refletora. Apoiou a mão no espelho pedindo ajuda, querendo uma porta, um fim. Decepção revoltante! O pouco de energia sabiamente armazenado pelo corpo foi gasto numa briga tola com aquele a quem se assemelhava. Punhos cerrados e decididos acompanhados de pontapés robustos. Tanto e tanto que a superfície não teve outra opção: desistiu. Trincou num sinal de alerta, inútil. Desrespeitada, perdeu a pena que lhe segurava e deixou-se cair de alturas inenarráveis. Suas partes atingiam sequencialmente o corpo outrora lutador. A superfície desvirginada antes apenas por pegadas tímidas, mostrava-se tingida dum vermelho irregular, indeciso, contudo estarrecedor.
Suspiro rápido e dolorido foi ouvido pelo quarto enquanto a mão limpava a face. O coração acalmou permitindo aos olhos abrir e ao corpo sentar.
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