Agora a dor já cessara. Havia um calor estranho percorrendo-me o corpo. Esquentava-me sem provocar conforto algum. A tarde era fria, talvez já não houvessem tantos transeuntes. Alguns gritos, calmos, despertavam-me da sonolência. Ele ‘tá sangrando muito! Precisamos levá-lo agora! Sangue?
O que havia acontecido? Carro, estrada. Luzes, lusco-fusco. Estridente, ensurdecedor. Dor, dor, dor. Calmaria. Ainda gritam para salvar-me. Desistam. Já sinto que é chegada a hora. Estranho, não queria, mas já está aceito pela mente. Sempre pensei em algo mais assustador.
Para onde estava indo? Voltando para casa. Dia de trabalho. Dia útil. Inútil dia útil. Bem, sexta. Perdi o final de semana. E trabalhei a semana inteira. Trabalhei essa semana? Não lembro. O que fazia? Engenheiro? Não, nunca me dei bem com números. Advogado? Possível. É, advogado, cai bem. Meu nome, Bento, para combinar. Perfeito, sim, advogado.
Filhos? Ah sim! Dois. Ou seria um? Minha mente se esvai. Qual era o nome mesmo? Parece que cada vez mais me confundo com o planeta.
Louca vida louca, vida breve. Já escutei isso em algum lugar. Agora posso, pelo menos, soltar-me das amarras da vida e falar o que bem entendo. Política! Ah, mas já não lembro, não quero. Sobre o que falava antes? Filhos? É, sim. Não tinha.
Bem, a vida passa assim, rápido como o metrô. Que triste, comparar uma vida inteira ao metrô. Mas é, os dois passam rápido, com alguns momentos de parada que tentamos nos recordar, mas sempre, invariavelmente, por mais que tentem deixar a porta aberta, ela volta a correr. E assim ele vai, o metrô, consumindo cada vez mais cada metro a sua frente.
Ah, não liguem pra ninguém. Finjam que fugi para a praia. Estragar o final de semana das pessoas. Para quê? Não vai mudar nada se minha esposa agora estiver chorando por mim. Ah, eu era casado? Bem, filhos, com certeza, não tinha. É, casamento. Acho que não. Quiçá noivo, mas não casado. Sim, noivo é uma parte legal. Deve ser como a primeira mordida no hambúrguer. Você ainda está morrendo de fome para fazê-lo parecer mais gostoso do que realmente é, mas ainda não está cheio o suficiente para ser perguntar se realmente vale a pena terminá-lo.
Ah, quantas comparações inúteis. Melhor não chegar ao amor. Vou acabar comparando-o com uma chama eterna que apaga, contradizendo-o em si mesmo e me tornando clichê demais. É, vou parar.
Olha, a máquina está apitando. Pi, pi, pi. Que sonolência. Pi, pi, pi. Qual era mesmo meu nome? Piii…
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