A luz ainda piscava. Seus tons psicodélicos encaminhavam-me a lugares tão profundos de minha mente que dia algum eu havia imaginado que existiam. Absorto, recordava-me de assuntos que eu repudiava. E a luz ainda piscava. Do negro, apagado, cor que eu não via ao vermelho, sangue. Intermitente. Oscilava entre coisas tão opostas quanto o que eu sentia. Repudiava-me ao mesmo tempo em que me deixava com inveja tal que fazia com que eu odiasse até mesmo um letreiro iluminado. Provavelmente porque ela estava ali. Mas logo acima, suspensa, como se nada nela interferisse, estava a lua. Quando o maldito letreiro, por míseros décimos de segundo, escondia-se na escuridão, ela me iluminava. Desdenhava por estar acima, imponente. Invencível com seu orgulho de ser quase intocável e ao mesmo temo solitária por não ter ninguém mais para acompanhá-la. Dois extremos que me aproximavam e distanciavam dela.
Porém na próxima noite não voltaria. Míseros segundos não me faziam renascer como uma fênix. Rente à guia corre a água do dia, que morre no bueiro. Uma barata e um rato lutam contra a correnteza do rio de óleo. Aproximam-se de mim sem que eu note. Mas eu não sou companhia decente. Logo saem pelo mesmo caminho do sangue do asfalto. Fétido e profanado. Podre como nossas almas. Não percebi os ratos como todos desprezam a destruição que paira, perpetua e camufla nossos medos.
Um bêbado insignificante passava pelo local. Talvez, a meu ver, só não mais insignificante que meu próprio ser. Quer digam, que fale. Fito o espelho e o mesmo ser me vem aos olhos. Menosprezo-me. Mas não consigo me ver de outro modo. Murmúrios chegam aos meus ouvidos e me tiram do abismo de meu coração. O despedaçar de uma folha termina o processo de volta da mente que, em nirvana, passeava por lugares macabros.
O som aumenta. A luz acende. Diminui, e ela apaga. Ergo a cabeça e vejo a névoa que flutua, bailando num ritmo sem fim. O letreiro escrito “PUB” parece de outro mundo enevoado do jeito que se encontrava. E me fez lembrar de onde estava.
Por mais que tentasse e desse voltas, não consegui esquecê-la. Tão linda e tão perfeita. Eu tão bom que sou estranho. Ela tão estranha que é indescritível. Eu, o adorado. Ela, a rejeitada. Eu, padrão. Ela, descomunal. Eu, simplesmente eu. Ela, tudo.
Velhas rechonchudas apertavam-me as bochechas e sempre repetiam como eu era bonito, educado, um exemplo. Ela, repudiada. Mas de que me adianta seguir os padrões dos antigos se é o presente que me abriga? Vemos um mundo podre vindo desses padrões, e devo segui-los? O sonho acabou e eu não posso? Só quero ser eu mesmo, mas não consigo. Ela sim. E aparece.
Vinda da escada descendente que levava ao pub. Primeiro aparece sua cabeça. Sua franja partida ao meio caia-lhe nos olhos quando sua mão cheia de anéis joga-a para o lado, tirando a barreira que impedia de vê-los negros e tão profundos quanto qualquer lago. Tão assassinos como o pior dos malfeitores. Tão hipnotizantes quanto qualquer pêndulo. Tão seus quanto eu.
Seu longo cabelo castanho avermelhado dançava em suas costas. Não via no momento, mas, de tanto ter visto, e sonhado, podia lembrar perfeitamente. Recebia banhos periódicos de luz, o que finalmente fazia com que eu gostasse do letreiro.
Seus pequenos seios mostravam que ostentava uma beleza fora do padrão. Olhos fugazes de quem viveu e vivenciou mais coisas do que a idade poderia ter proporcionado. Seu andar ereto de quem sabe o quão importante é. A cada passo sentia que ela estava mais perto de mim e eu mais longe de minha pessoa. Vinha em minha direção. Protegida por Adamastor que voltou depois de tanto tempo somente para me atormentar.
Porque me trouxera? Pena? Pedido de alguém? Trouxera-me onde poderia encontrar seus amigos. Eu um amigo qualquer. Com pouquíssima idade chegamos a tomar banho juntos, mas que diferença isso faz no momento? Tantas dúvidas vagam em minha cabeça e não sei responder. Provavelmente seria só o apêndice que por algum motivo banal teve que levar.
—O que faz aqui? – me pergunta.
—Só estou tomando um pouco de ar.
—Aconteceu algo? Não gostou do lugar? Deles? – ela indaga parecendo aflita.
Será que isso realmente importava? Ou perguntava só por ser simpática?
Serei eu mais que “o vizinho”?
—Não foi nada. De verdade. – e abro o sorriso mais falso que consigo ostentar.
—Vamos entrar, então?
—Claro.
Ela segura minhas mãos e me puxa, trazendo-me a uma nova perspectiva. Suas mãos ainda seguram as minhas. Sinto meus pêlos eriçarem com sua respiração tão próxima de minha pele.
—Estava chorando? – me pergunta, ao notar meus olhos marejados.
—Não. Foi só um pouco de fumaça que entrou.
Ela limpa as lágrimas que se acumulam e me abraça, encostando sua cabeça em meu peito e colocando seus braços sobre meus ombros.
—Te adoro!
—Também. – respondo, inseguro.
Ela levanta a cabeça e seus olhos encontram os meus. Fica na ponta dos pés, desvia a cabeça e me dá um beijo. Afasta-se e sorri. Segura uma de minhas mãos e me puxa em direção ao Pub. Logo que ela vira de costas, levo a outra à bochecha como que para assegurar que ela realmente foi beijada. Que realmente era a minha.
Deixo que me conduza. Sigo-a para qualquer lugar. Logo entramos e deixo meus sentimentos reservados no meu cofre blindado no mais profundo e obscuro canto perdido de meu ser. Volto a ser mais um personagem na peça de minha vida.
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