segunda-feira, 6 de junho de 2011

Regras

Dois votos por pessoa, não vale votar duas vezes no mesmo texto, inscritos não podem votar os dois votos nos próprios textos (um pode)
o único porém
entre mim e você
é a terceira pessoa do singular

Dádiva

A vida é ágil
como uma lebre em fuga,
como um pugilista em fúria

A vida é frágil
como porcelana de antiquário
em terremoto japonês.

Boneca surrada

Meninice roubada
doce criança
tirada do parque
da amarelinha.

Esqueceu-se dos brinquedos de madeira.
A esquina os tirou.

Um homem a vê.
a chama
a cala.

De volta ao concreto
no espelho da rua
Ela se olha
uma boneca surrada.

Pós

Agora a dor já cessara. Havia um calor estranho percorrendo-me o corpo. Esquentava-me sem provocar conforto algum. A tarde era fria, talvez já não houvessem tantos transeuntes. Alguns gritos, calmos, despertavam-me da sonolência. Ele ‘tá sangrando muito! Precisamos levá-lo agora! Sangue?

O que havia acontecido? Carro, estrada. Luzes, lusco-fusco. Estridente, ensurdecedor. Dor, dor, dor. Calmaria. Ainda gritam para salvar-me. Desistam. Já sinto que é chegada a hora. Estranho, não queria, mas já está aceito pela mente. Sempre pensei em algo mais assustador.

Para onde estava indo? Voltando para casa. Dia de trabalho. Dia útil. Inútil dia útil. Bem, sexta. Perdi o final de semana. E trabalhei a semana inteira. Trabalhei essa semana? Não lembro. O que fazia? Engenheiro? Não, nunca me dei bem com números. Advogado? Possível. É, advogado, cai bem. Meu nome, Bento, para combinar. Perfeito, sim, advogado.

Filhos? Ah sim! Dois. Ou seria um? Minha mente se esvai. Qual era o nome mesmo? Parece que cada vez mais me confundo com o planeta.

Louca vida louca, vida breve. Já escutei isso em algum lugar. Agora posso, pelo menos, soltar-me das amarras da vida e falar o que bem entendo. Política! Ah, mas já não lembro, não quero. Sobre o que falava antes? Filhos? É, sim. Não tinha.

Bem, a vida passa assim, rápido como o metrô. Que triste, comparar uma vida inteira ao metrô. Mas é, os dois passam rápido, com alguns momentos de parada que tentamos nos recordar, mas sempre, invariavelmente, por mais que tentem deixar a porta aberta, ela volta a correr. E assim ele vai, o metrô, consumindo cada vez mais cada metro a sua frente.

Ah, não liguem pra ninguém. Finjam que fugi para a praia. Estragar o final de semana das pessoas. Para quê? Não vai mudar nada se minha esposa agora estiver chorando por mim. Ah, eu era casado? Bem, filhos, com certeza, não tinha. É, casamento. Acho que não. Quiçá noivo, mas não casado. Sim, noivo é uma parte legal. Deve ser como a primeira mordida no hambúrguer. Você ainda está morrendo de fome para fazê-lo parecer mais gostoso do que realmente é, mas ainda não está cheio o suficiente para ser perguntar se realmente vale a pena terminá-lo.

Ah, quantas comparações inúteis. Melhor não chegar ao amor. Vou acabar comparando-o com uma chama eterna que apaga, contradizendo-o em si mesmo e me tornando clichê demais. É, vou parar.

Olha, a máquina está apitando. Pi, pi, pi. Que sonolência. Pi, pi, pi. Qual era mesmo meu nome? Piii…

Avesso do Avesso

O estopim foi a chegada terrivelmente tardia no aniversário da irmã. Da rua ouviu o início desajeitado de vozes e palmas que rapidamente entraram em compasso antes mesmo de torcer a chave na fechadura da porta do carro, maldita chave, maldita desorganização, idiota, idiota. Atrapalhava-se em sua pressa inútil que levava ironicamente sua desordem pessoal para dentro da sincronia coletiva de vozes cada vez mais juntas no ritmo do parabéns, já estão no parabéns, que vergonha, já no parabéns. A cantoria lhe soava como o anúncio da condição embaraçosa em que se metera. Cruzou correndo a rua, o presente escorregando pelo braço, as mãos sem poder ajudar, uma com a mala, a outra com a chave e a blusa, só a ponta de um dedo livre para apertar a campainha, que arremessaria sobre o cristalino compasso da canção uma pedra de som pequena, mas pesada o suficiente para estilhaçá-lo. O berro da campainha seria uma intervenção impertinente, não, a campainha não, não agora. A imposição da espera ressaltava dura e implacavelmente a inutilidade da pressa com que correra até ali, tudo errado, tudo errado. Resignou-se à espera inevitável e o caráter passivo da resignação acentuou seu desânimo. O corpo inerte parado inutilmente em frente a um portão pareceu-lhe patético, ainda mais quando despertou a curiosidade de uma vizinha do outro lado da rua. Se o olhar atento dela já o constrangia, imaginou o tamanho insuportável do constrangimento que seria deparar-se com um mosaico completo de olhares de todos os parentes ao entrar na festa, tenho certeza que vão achar que é descaso, a chave vai soar como desculpa, mas não é, merda, que merda. A previsão dos momentos iminentes o angustiava. Tal sensação orientava o movimento de seus pensamentos desencadeando raciocínios desanimadores que construíram com impressionante rapidez uma lógica tão consistente que só restou-lhe aceitar a conclusão final que ele mesmo entregou para si: seu estado era simplesmente incompatível com o entusiasmo que transbordava o parabéns de dentro da casa como uma onda leve desaguando pelas escadas até chocar-se contra a densidade do desânimo de seu corpo inerte esquecido em frente ao portão. Uma última onda forte desceu, a repetição acelerada do nome da irmã em uníssono, mas não encontrou com nenhum obstáculo ao fim das escadas: ele já estava do outro lado da rua, procurando a chave no bolso para abrir o carro, maldita chave, maldita desorganização, depois eu invento uma desculpa, ela vai entender.

Quando encostou a cabeça ao travesseiro para dormir, o sono era incapaz de domar a agitação de seus pensamentos. Sua mente remontava o passado que o levara até aquele momento numa seqüência estática de acontecimentos pelos quais ele passava os olhos, indo e voltando, observando cada detalhe atentamente: a desorganização de seus compromissos fez com que corresse ao shopping para comprar um presente pouco antes do início da festa; a desorganização do uso de suas roupas fez com que percebesse só no momento em que abriu o guarda-roupa após sair do banho que estava sem roupas para a festa; a desorganização de sua casa fez com que perdesse a chave do carro ao voltar com o presente, pela qual procurou por aproximadamente duas horas tamanha a bagunça. A soma de suas desorganizações resultava na quantidade exata de horas e minutos de atraso suficiente para perder o parabéns. Lembrou-se imediatamente de tantos outros compromissos afetados por sua desorganização e decidiu que aquele seria o último, que a perda do aniversário da irmã seria o marco de uma nova fase em sua vida. Logo na manhã seguinte, começou a arrumar tudo ao seu redor. Em menos de um mês, conseguiu perceber maravilhado os inúmeros benefícios de ter suas coisas à disposição imediata, desde pertences a compromissos e idéias anotadas. Organizar transformou-se num prazer que cresceu constante por um ano até este dia, da festa de aniversário de sua irmã, em que passa a tarde inteira tão entretido em organizar suas fotos no computador que perde a hora e quando se dá conta está terrivelmente atrasado. Veste a roupa que já estava separada, apanha o presente comprado com antecedência, pega rapidamente a chave do carro e parte. Ao chegar, da rua ouve o início desajeitado de vozes e palmas que rapidamente entram em compasso antes mesmo de torcer a chave na fechadura da porta do carro.

Vereda

Novembro. O calor da tarde e sonolência da sesta embalavam-na. O ar. Parado. Murmúrios da televisão e zunir de uma mosca. Batia incessante, incessantemente na janela, tentando retornar à rua.

Pernas flexionadas, plantas dos pés no chão, brincava com os dedinhos na textura do tapete. O calor, tanto, que suspendeu o tecido leve do vestido acima da cintura. Algodão branco, estrelas azuis. Pousou-as sobre o peito. As mãos, acomodou-as sobre a pele fresca, agora livre, da barriga, que ronronava ainda e fazia os leves movimentos da digestão.

Os pensamentos passeavam. Fiapos. Soltos. Aéreos. Quarto abafado. Passeavam pelos acontecimentos, pelas palavras da senhora... advertindo-a... Então... Mocinha... Sim, também as colegas, da escola... Ah, mas essa mosca não sai nunca pra rua? ...As colegas falavam... Meninos... Uma vez, aquela festa... Ai! Lábios? ... Línguas? ...Estranho deve ser!... só pode! ...Podia abrir a janela pra mosca sair...

As mãos... levantar... fechar a janela... Tentativa sem forças. Pensamentos. Fiapos. Curiosidade. Curiosidade lenta, receosa. As mãos na barriga. Dedos finos, unhas roídas, deslizando. Lenta, lentamente. Curiosas. Passando pelo umbigo em direção ao baixo ventre. Ali, respiração, pele, penugem. Dourada.

Medo. O que fazia?

Não, não parou. Movimento lento, contínuo. As mãos, deslizando. Uma linha descendente pelo corpo. Chegou à margem da calcinha, infiltrou os dedos por baixo do elástico... a boca, seca. Seguiam os dedos clandestinos, invasores. Aquilo era um terreno privado! Invasores, lentos, quietos. Curiosos.

Deslizaram os dedos pela aspereza. Púbios pelos, inda nascentes. Os joelhos cederam moles, para os lados. Tremor, leve, constante. Receio que sacudia o corpo magro. Ansiedade e excitação de desbravador, aprendia lentamente os caminhos de um terra nova, não explorada.

Agora, maciez daquelas carnes. Tatear, compreender essa anatomia... Úmida... Excitação... forças opostas... Receio. Um pouco mais, só... Cerrou os olhos, lábios entreabertos. Só...

Susto! Pára! Tão longe! As pernas tremiam, moles, gelatina. Coração em baque disparado, boca seca.

Lenta, lentamente, encolheu-se. A mosca já não zunia na janela... Acomodou-se. Ninho de almofadas. Aninhou-se. Urso de pelúcia. Abraçou-o. Lenta, lenta. Adormeceu.

Ela

- Fala uma coisa bonitinha pra mim?

Fodeu, pensou. Por essa ele não esperava. Sempre imaginava coisas muito bonitinhas, mas pra falar... Naquele momento não, era muito arriscado. Estavam no segundo encontro, a menina se assustaria. Ele sempre tivera essa mania de pensar adiante demais, mesmo que fosse só para si. Agora, não poderia usar esse monte de castelos de vento.

- Me dá trinta segundos.

Um prazo. Excelente. Agora era aproveitar esse tempo. (Sua vida ultimamente havia se resumido a fazer malabarismo para cumprir prazos). Uma coisa bonitinha... Estava tudo escuro, não era fácil olhar aqueles olhos misteriosos e tirar inspiração. Suas pernas estavam embaixo das dela, sofrendo uma pressão muito leve, quase nenhuma, e ele só sentia aquele toque sensual. A menina mostrava os dentes num sorriso desconcertante. Roçava o pé nos pés dele com displicência carinhosa, e ele se derretia. Por sua cabeça, porém, não passava nada.

Muita prosa e pouca poesia. Era isso o que estava acontecendo em sua vida. Estava perdendo a capacidade de falar coisas bonitinhas. Não conseguia falar… Será que não conseguir se expressar significava não sentir? Assustou-se. Bateu uma angústia, um medo de não conseguir sentir mais nada por ninguém, de perder toda a sensibilidade… O que estava acontecendo?

Sentiu-se oco. Como poderia falar alguma coisa bonitinha? Só queria ficar ali, quieto, eternamente, debaixo daquele corpo esguio, quente. Falar era arriscar-se. Poderia pôr tudo a perder. Isso, aliás, era algo que o incomodava. Às vezes se pegava querendo congelar o tempo, deixar as coisas na mesma situação. Não entendia como aquela garota podia gostar dele... E por isso tinha medo de que, se ela o conhecesse “de verdade”, fatalmente cairia em si e iria embora.

Os pensamentos zuniam enquanto o tempo se esgotava. Se esforçava para pensar uma coisa fofa que pudesse ser dita. Meu carinho por você cresce em uma escala logarítmica – idiota demais. Queria derrapar em todas as suas curvas – caminhoneiro demais. Adoro tudo em você – sem originalidade. Queria plantar rosas num jardim ao pé da sua cama – piegas demais. Seu sorriso desconcerta – só isso? Como era difícil... Fazia tempo que ele não falava coisas bonitinhas. Definitivamente, perdera o jeito. Era agora, agora ela descobriria que cometera um engano, que ele era uma fraude, e sairia pela porta, desistiria de tudo...

- Gosto tanto de você que me assusta o medo que já tenho de te perder.

O sorriso dela alcançou as orelhas. Depois disso ele parou de pensar completamente

Alucinação I

Semicerrou os olhos num estado de quase delírio. O teto era seu mundo e tudo acontecia lá, o anteparo de sua projeção mental. O teto era velho, pobre e denunciava a mesquinhez com que o cubículo fora construído pelas imensas rachaduras. Elas despedaçavam progressivamente libertando no ar uma poeira espeça, fuligem da tintura branca trincada. Sentiu o pó assentar em seu rosto, era como se um pouco do universo chegasse até ele na forma daqueles flocos brancos gelado de neve, muito gelados, de uma neve muito branca e infinita que cobria todo seu universo visível. Uma Sibéria diante de seus olhos, apenas neve, pra sempre, para o todo a neve, e ela o atingia cada vez mais forte, mais fria, uma tempestade agora...seus pés afundavam na grossa camada que cobria a superfície, cobria-a toda como se superfície não existisse mais. A roupa pouca castigava o corpo gelado sem piedade, sem defender do frio, como se não se importasse – e quem se importaria agora? O medo lhe tomou por inteiro e o assustava mais que o frio. Era tudo tão branco, tão belo. Temer o belo, o limpo, o puro era assustador! Quis sentar-se à neve como uma criança, brincar com ela, inocente. Quis fazer anjos, bonecos, moldar bolas, inocente. Mas toda aquela inocência branca não lhe pertencia mais, não podia ser criança, o frio gelou seu coração e agora ele não podia mais ser criança, inocente. Sua lágrima derreteu a neve. Derreteu a inocência, pureza, brancura. Mimado, raivoso, temeroso, cansara-se...quis, não pode, cansara-se. Desdobrou os joelhos estalando-os, pôs-se a andar. Sair dali. Aquele universo era grande demais, era tudo que via, era tudo. É muito grande! Seus pés, coitados, reclamaram da dor. Neve dói! Andava, andava, mais, mais, corria, mais ,mais, cansava ele. Uma dor gritou-lhe ao cérebro para parar, uma dor no peito, mas ele discutia com ela. Convenceu-a quando, de longe, viu algo. Que é? Aquilo, que é? As pegadas no lençol infinito e monocolorido eram multiplicadas em velocidade crescente. O ponto aumentava no horizonte, então estava rápido, então chegava. Cada vez mais nítido e próximo, o referencial decifrou-se em poucos minutos. Era um jovem cansado em meio a uma imensidão de flocos, porém coberto por uma casaca forte e preta, sem gelo na cara, sem peito roxo e a mesma mão trêmula pedindo ajuda. Os olhos, confusos por falharem em serviço já tão costumaz, tentaram de novo, todavia o resultado caía numa mesmice chata, preferindo eles admitir a certeza que tinham. Via a si mesmo, um reflexo no meio do nada. Como quem não pode perder, arrastou o corpo na direção pedindo auxílio ao tato. Este lhe informou de uma superfície lisa e refletora. Apoiou a mão no espelho pedindo ajuda, querendo uma porta, um fim. Decepção revoltante! O pouco de energia sabiamente armazenado pelo corpo foi gasto numa briga tola com aquele a quem se assemelhava. Punhos cerrados e decididos acompanhados de pontapés robustos. Tanto e tanto que a superfície não teve outra opção: desistiu. Trincou num sinal de alerta, inútil. Desrespeitada, perdeu a pena que lhe segurava e deixou-se cair de alturas inenarráveis. Suas partes atingiam sequencialmente o corpo outrora lutador. A superfície desvirginada antes apenas por pegadas tímidas, mostrava-se tingida dum vermelho irregular, indeciso, contudo estarrecedor.

Suspiro rápido e dolorido foi ouvido pelo quarto enquanto a mão limpava a face. O coração acalmou permitindo aos olhos abrir e ao corpo sentar.

Teatro Vivente Versão 2

A luz ainda piscava. Seus tons psicodélicos encaminhavam-me a lugares tão profundos de minha mente que dia algum eu havia imaginado que existiam. Absorto, recordava-me de assuntos que eu repudiava. E a luz ainda piscava. Do negro, apagado, cor que eu não via ao vermelho, sangue. Intermitente. Oscilava entre coisas tão opostas quanto o que eu sentia. Repudiava-me ao mesmo tempo em que me deixava com inveja tal que fazia com que eu odiasse até mesmo um letreiro iluminado. Provavelmente porque ela estava ali. Mas logo acima, suspensa, como se nada nela interferisse, estava a lua. Quando o maldito letreiro, por míseros décimos de segundo, escondia-se na escuridão, ela me iluminava. Desdenhava por estar acima, imponente. Invencível com seu orgulho de ser quase intocável e ao mesmo temo solitária por não ter ninguém mais para acompanhá-la. Dois extremos que me aproximavam e distanciavam dela.

Porém na próxima noite não voltaria. Míseros segundos não me faziam renascer como uma fênix. Rente à guia corre a água do dia, que morre no bueiro. Uma barata e um rato lutam contra a correnteza do rio de óleo. Aproximam-se de mim sem que eu note. Mas eu não sou companhia decente. Logo saem pelo mesmo caminho do sangue do asfalto. Fétido e profanado. Podre como nossas almas. Não percebi os ratos como todos desprezam a destruição que paira, perpetua e camufla nossos medos.

Um bêbado insignificante passava pelo local. Talvez, a meu ver, só não mais insignificante que meu próprio ser. Quer digam, que fale. Fito o espelho e o mesmo ser me vem aos olhos. Menosprezo-me. Mas não consigo me ver de outro modo. Murmúrios chegam aos meus ouvidos e me tiram do abismo de meu coração. O despedaçar de uma folha termina o processo de volta da mente que, em nirvana, passeava por lugares macabros.

O som aumenta. A luz acende. Diminui, e ela apaga. Ergo a cabeça e vejo a névoa que flutua, bailando num ritmo sem fim. O letreiro escrito “PUB” parece de outro mundo enevoado do jeito que se encontrava. E me fez lembrar de onde estava.

Por mais que tentasse e desse voltas, não consegui esquecê-la. Tão linda e tão perfeita. Eu tão bom que sou estranho. Ela tão estranha que é indescritível. Eu, o adorado. Ela, a rejeitada. Eu, padrão. Ela, descomunal. Eu, simplesmente eu. Ela, tudo.

Velhas rechonchudas apertavam-me as bochechas e sempre repetiam como eu era bonito, educado, um exemplo. Ela, repudiada. Mas de que me adianta seguir os padrões dos antigos se é o presente que me abriga? Vemos um mundo podre vindo desses padrões, e devo segui-los? O sonho acabou e eu não posso? Só quero ser eu mesmo, mas não consigo. Ela sim. E aparece.

Vinda da escada descendente que levava ao pub. Primeiro aparece sua cabeça. Sua franja partida ao meio caia-lhe nos olhos quando sua mão cheia de anéis joga-a para o lado, tirando a barreira que impedia de vê-los negros e tão profundos quanto qualquer lago. Tão assassinos como o pior dos malfeitores. Tão hipnotizantes quanto qualquer pêndulo. Tão seus quanto eu.

Seu longo cabelo castanho avermelhado dançava em suas costas. Não via no momento, mas, de tanto ter visto, e sonhado, podia lembrar perfeitamente. Recebia banhos periódicos de luz, o que finalmente fazia com que eu gostasse do letreiro.

Seus pequenos seios mostravam que ostentava uma beleza fora do padrão. Olhos fugazes de quem viveu e vivenciou mais coisas do que a idade poderia ter proporcionado. Seu andar ereto de quem sabe o quão importante é. A cada passo sentia que ela estava mais perto de mim e eu mais longe de minha pessoa. Vinha em minha direção. Protegida por Adamastor que voltou depois de tanto tempo somente para me atormentar.

Porque me trouxera? Pena? Pedido de alguém? Trouxera-me onde poderia encontrar seus amigos. Eu um amigo qualquer. Com pouquíssima idade chegamos a tomar banho juntos, mas que diferença isso faz no momento? Tantas dúvidas vagam em minha cabeça e não sei responder. Provavelmente seria só o apêndice que por algum motivo banal teve que levar.

—O que faz aqui? – me pergunta.

—Só estou tomando um pouco de ar.

—Aconteceu algo? Não gostou do lugar? Deles? – ela indaga parecendo aflita.

Será que isso realmente importava? Ou perguntava só por ser simpática?

Serei eu mais que “o vizinho”?

—Não foi nada. De verdade. – e abro o sorriso mais falso que consigo ostentar.

—Vamos entrar, então?

—Claro.

Ela segura minhas mãos e me puxa, trazendo-me a uma nova perspectiva. Suas mãos ainda seguram as minhas. Sinto meus pêlos eriçarem com sua respiração tão próxima de minha pele.

—Estava chorando? – me pergunta, ao notar meus olhos marejados.

—Não. Foi só um pouco de fumaça que entrou.

Ela limpa as lágrimas que se acumulam e me abraça, encostando sua cabeça em meu peito e colocando seus braços sobre meus ombros.

—Te adoro!

—Também. – respondo, inseguro.

Ela levanta a cabeça e seus olhos encontram os meus. Fica na ponta dos pés, desvia a cabeça e me dá um beijo. Afasta-se e sorri. Segura uma de minhas mãos e me puxa em direção ao Pub. Logo que ela vira de costas, levo a outra à bochecha como que para assegurar que ela realmente foi beijada. Que realmente era a minha.

Deixo que me conduza. Sigo-a para qualquer lugar. Logo entramos e deixo meus sentimentos reservados no meu cofre blindado no mais profundo e obscuro canto perdido de meu ser. Volto a ser mais um personagem na peça de minha vida.

O tempo

Voa
Vai
Volta
Vence.

Esvazia
Enche
Empobrece
Enobrece.

O tempo se
e
s
v
a
i.

Passa
e traz de volta.

O tempo
é dono de si mesmo
e tem como filho
o mundo inteiro.

Relógio
Sino
Ampulheta
Mente.

Tempo
Tem
Tempo.

Primeira

Mais uma vez eu compunha aquele azulejo sonolento, que todos fazemos cada vez mais questão de assentar nas paredes do metrô de São Paulo. Uma concentração no místico vazio formado pelas ossas questões não solucionadas, essa solidão coletiva em que mergulhamos, aos bocejos e óculos escuros. Praticamente atrasado, véspera de feriado. A única voz que se houve é do condutor, e até seu sotaque vira piada em happy hours descolados.

Daí chega uma família, estilo clássico. Filhos, vó, brinquedo, tudo. O pai organiza todos em lugares com sua onisciência inata; o menino lê os nomes das estações e pela primeira vez entende pelo menos como se chama o lugar onde está sem ter de aborrecer aos mais velhos, numa pequena faísca atrevida de independência. A menina sentada confortavelmente no colo da mãe brinca com um dinossauro de borracha, e a avó deita o olhar cheio de orgulho sobre sua cria, que assume o papel de ser doce e proteção em ambiente hostil.

E me sinto estranhamente culpado por ser azulejo frio e estático. Aquela culpa de não impedir xingamento de gordinho, uma pontada de leve em nossa vegetal consciência de parte de um todo, de um grupo, de uma sociedade. Ora, a cidade é feita de pessoas, por mais que a cada dia nos convençamos e nos conveçam do contrário (qualquer que ele seja, o contrário disso). E como um atacante desengonçado que toma a frente do marcador, ajo impulsionado pela pontada. Levanto os óculos, sorrio e brinco com o dinossauro. Eles são do interior, como eu, mas estão de passagem só... e olha, essa cidade é muito louca, imagina que ficamos meia hora no Tietê procurando o sentido certo do metrô, mas é bom pras crianças conhecerem.

Sim, é bom.

E sem querer, fiz com que a primeira frase que as crianças ouviram pronunciada por São Paulo tenha sido "bom dia", e não "fica esperto". Essa última elas vão ouvir, rápido, muitas vezes. Ao verem que quando todos são ninguém pra todos, cada um desses ninguéns forma essa massa, e ela é cinza como o céu que tampa isso tudo. Cinza como os trens que vão passar, cinza como as esquinas do café quente e da cerveja fria, cinza como a nossa cara atrasada, por culpa dela, São Paulo. E cinza como o amor compulsório que um dia por ela terão.

e agora?

continuo intrigada com a continuidade.
queria perguntar pra freud: como que fica a pessoa que não sabe lá qual é seu grande outro, seu grande objeto (ou qualquer definição inventada).
pessoa que vive a insatisfação de ser sem cordão umbilical, mas não dá conta de encontrar meios de se preencher.
pessoa que já não grita pela mãe, não chora pelos amigos, nem aproxima o mundo pela palavras.
pessoa que vive, vive fingindo não olhar muito para os lados, porque sabe que assim as chances são maiores de ser feliz, de ser estática.
pessoa que inventa pequenas satisfações para se manter normal, mesmo sabendo que nunca vai ser capaz de considerar um grande desejo. ela sabe que o grande desejo é inalcançável, mas bem que ela queria, ao menos, ter a experiência frustrada de tentar alcançá-lo.
bem, roubaram o carretel.

A salvadora da pátria

Você sabe como é, né? Vai chegando os 60 e logo os 70 e a gente começa a sentir uma necessidade terrível de ter feito alguma coisa de útil neste quase um século de vida. Os tricôs, o ato de alimentar pombos ou de cultivar orquídeas não são tão memoráveis quanto a minissaia (abaixo do joelho) da antiga juventude.

Se o caso não era assim tão trágico, se aproximava. Ela estava ali, sozinha, em meio à animalização humana. Mas justo ela, uma pessoa que já passou por tanto, mas tanto, mas tanto! Que não poderia se conformar com qualquer coisa. Seu olhar era furtivo e de reprovação a cada massa de gente que entrava mais como massa do que gente porque se não fosse assim não teriam como se afirmar como gente por pelo menos uma hora do seu dia – uma hora de almoço, talvez.

Mas para ela não fazia sentido – mal educados! - Pensava com sua respiração ofegante. Cansava-lhe aquela posição torta, apertada e tentada pela inércia. Era um absurdo ter que passar por aquilo, mas no entanto estava só. Era só ela para lutar contra todos aqueles brutamontes que ocupavam lugares inexistentes dentro do vagão.

Foi quando surgiu uma luz. Lá entrava sua salvação... Uma das suas: cabelos grisalhos, olhos cansados atrás de lentes bifocais, um suéter azul turquesa, uma bolsa leve com alguns novelos de lã. Aquela era sua deixa, era seu momento de mostrar sua indignação – podemos começar uma revolução! - ou mais do que isso, ela poderia mostrar a que veio, sua formação, sua cidadania esquecia há décadas de aposentaria falida e que mal lhe garantia independência em relação aos seus filhos.

Passou a buscar por todos os lados alguém que pudesse ser crucificado em público para mostrar o seu poder. Olhou bem ao redor até reparar em algo estranho, bem ali próximo a si. Estava tão cansada, era tão idosa – e de fato era – precisava tanto sentar. A sua frente um banco preferencial e um homem, tinha entre 30 e 40 anos. Absurdo um rapaz como aquele estar sentado ali, enquanto ela estava tão cansada. Não pensou duas vezes. Virou-se para o lado:

- Você não quer se sentar? - perguntou para a senhora, não tão senhora se comparada a ela mesma.
A colega recusava veementemente o assento enquanto a outra argumentava “é o nosso direito”. Abaixou-se e cutucou o homem:

- Escuta, o senhor tem carteirinha?

Sem entender, o homem olha para cima com cara de dúvida.

- É! A carteirinha preferencial. Você tem? - continuava com ares inquisitoriais de quem faz uso
de uma autoridade esquecida.

Foi com pesar, talvez um pouco de vergonha e receio embebidos de rancor e inconformismo, que o homem mostrou, lentamente, o bilhete rosado que lhe garantia o direito de estar sentado ali.

E foi também com receio, mas não tanto - afinal, tinha sido justa. “A gente tem que perguntar, né?” justificava-se – que a justiceira da terceira idade compreendeu o caso. Ela se ajeitava no seu lugar quando o homem iniciou o seu ato.

Sem se levantar, com muita falta de coordenação, colocou sua mochila, retirou uma bengala escondida atrás de suas vestes, levantou-se com mais dificuldade ainda e com uma mão apoiada na bengala e outra nas alças de apoio – que de tanto apoio que fornecem são chamadas com nome de palavrão – cedeu o lugar para a idosa.

O ato heróico, se não desbundou, desbancou nossa justiceira. Não faltaram novos heróis para compor uma liga. Uma terceira senhora se levantou do banco não preferencial e o cedeu para o deficiente. Este recusou, criando um impasse de quatro passageiros e dois bancos recusados. Bancos de vergonha de heróis fracassados em suas vidas e em seus momentos de glória – estou indo para fisioterapia – lembrava a justiceira.

A briga durou até um dos componentes da liga desembarcar. O deficiente cedeu e retomou seu lugar. Um outro banco ficou vago e foi alvo de disputa entre a grande defensora da pátria e sua oprimida inicial. Competiram por menos de um minuto para que a justiceira perdesse o direito de ficar em pé e, resignada, com muita vergonha, se sentasse sob os olhares acusatórios de outras idosas inconformadas. “Que papelão”, pensavam todas as salvadoras da pátria.

A conversa

Centro da cidade.

Prédios de média estatura, indecisos entre o creme e o cinza, pintando a cidade.

Buzinas, pessoas, um vai e vem quase infinito.

Ela desliza por entre as lojas, olhando vitrines, sem um objetivo certo. Calçadas
cheias, quase nenhum espaço para pensar.

De repente uma voz. Olá. É ele. Nossa. É ele.

E como uma forte rajada de vento, o coração dispara. Não quer parar.

Para. Por favor. Para coração. Por cinco minutos. Nem que eu pare de respirar. Só não quero morrer de amor.

Mas o que estou dizendo, pensa. Não pode ser. Não estou apaixonada. Não por ele. Não pode realmente ser verdade.

A conversa flui. Nervosa.

Um beijo de cumprimento. Um sorriso. Ah! Que lindo sorriso. Uma voz meiga.

Um novo sorriso. Uma lembrança de momentos vividos. Um passado não tão distante.

Mas o que é realmente isso? Sua mente divaga novamente. Como se estivesse em dois lugares ao mesmo tempo, começa a pensar sobre aquele momento enquanto ainda o vive.

Tenta entender o que não tem explicação. Tenta enganar o próprio coração.

A paixão, quando chega, afinal, não pede mesmo licença. Simplesmente entra. Às vezes com pequenos avisos sutis. Às vezes com um disparar intenso de coração.

Pode-se controlar até certo ponto. Depois...Bom, depois ele escreve sua própria história. E então vivemos à deriva de sua vontade, como meros espectadores.

Para coração. Eu suplico. Não quero. Não vou me apaixonar. Não posso. Não devo. Muito menos por ele. Aquele que há um mês me deixou parada na porta, sem saber qual o próximo passo.

Vontade de ultrapassar os limites da pele. Tocá-lo. Fazê-lo parar. Medo de ser ouvida em suas revelações involuntárias.

Ruas ainda cheias. Talvez o mundo tenha parado. Mas agora voltou ao seu ciclo natural.

Estação.

Anda. Ainda pensando. Sonhando. Ou tentando não sonhar. Imagina. Mil situações. Muitas delas não virão a ser realidade. Quem sabe. Ninguém conhece o dia de amanhã. Não sabe se está radiante ou triste. É a doce confusão que toma conta do coração que se recusa a ouvir a própria voz.

No meio da multidão de fim de tarde pega o trem para casa.

Droga. Droga. Não acredito. Percebe já no meio do caminho que pegou o trem errado.

Não acredito que confundi o lado. Há quanto tempo isso não me acontecia.

Desce. Atenta atravessa a passarela.

Adentra o trem correto. Ruma. Esquece momentaneamente do acontecido, da conversa, dele.

Chega. Saída da estação. Caminha tranquilamente. Relembra. E seus passos dissolvem-se em meio a tantos outros pensamentos incertos.